Machines of Loving Grace

Frame de "All Watched Over by Machines of Loving Grace" de Adam Curtis.

Frame de “All Watched Over by Machines of Loving Grace” de Adam Curtis.

O documentário All Watched Over by Machines of Loving Grace, de Adam Curtis, demonstra o desejo insasiável do homem em conseguir controlar tudo, perceber como o mundo funciona para prever e programar as pessoas e o mundo de forma a obtermos um sistema coerente autosuficiente e auto regulável. Adam Curtis mostra-nos as diferentes abordagens que os cientistas, ecólogos e sociólogos têm em relação à tentativa de definir a nossa relação com o mundo e tentar melhorá-lo ao máximo, socorrendo-se da cibernética. Desde os anos 1960 até ao início do milénio, observa-se uma visão cibernética utópica.

Começa por mostrar-nos, no primeiro episódio, um paralelo entre as ideias e vida pessoal de Ayn Rand e os acontecimentos politico-económicos dos anos de presidncia de Bill Clinton (e a sua vida amorosa). Onde vê-se a transferência dos valores de Ayn Rand para o mundo político. A autora não acreditava no altruísmo, antes pelo contrário, cada homem devia viver com a meta de ser feliz sem se preocupar com os outros. Isto resultou muito bem, de facto, para os empreendedores de Silicon Valley, no entanto depois do “boom” dos mercados americanos começou uma época de declínio, escassez e crise. E deveu-se ao desejo insaciável do homem, quer do homem comum, quer do político, de poder.

O segundo episódio do documentário fala-nos de uma ilusão e desilusão dos ecosistemas. Nos anos 60 estuda-se os ecosistemas naturais em busca de um equilíbrio. Acredita-se que a natureza e os seus sistemas tendem todos para um estado estável, contornando porblemas através da junção de todos os elementos daquele sistema.

À partir desta lógica, o homem procura replicar um sistema organizado, equilibrado e que se regule a si mesmo, com a ajuda constante dos cálculos computacionais. A primeira tentativa de encontrar esses padrões estabilizadores é conseguida através da simplificação do comportamento dos animais e vegetais nos seus sistemas.

A segunda abordagem, vem por parte de um engenheiro, que constrói  estruturas simples e fortes, juntando peças mais pequenas e fracas por si só. Assim, chega-se à ideia de que a sociedade deve unir-se, cada indivíduo representa um elemento de um ecosistema global e só assim poderá ser sustentável.

No entanto, nos anos 70, com todos os indícios de que o sistema não consegue ser auto-sustentável e equilibrado, toda a lógica do ecosistema é posta em causa, é interrogada e analisada de forma a chegar-se a sua verocidade ou falcidade. Depois da análise computacional de todos os dados recolhidos por meio de observação, os investigadores falham em encontrar um padrão estabilizador. Antes pelo contrário, descobrem o caos. Descobrem que a natureza sofre grandes mudanças, imprevisíveis, sempre que se depara com um distúrbio.

O terceiro episódio remete-nos para a teoria da selecção natural, através de Bill Hamilton. Este defendia que a meta dos seres humanos era transmitir os melhores genes para as gerações futuras e, numa visão mais radical, ele justificava a coexistência e as acções  de um homicida ou suicida (altruista), como também reprimia a medicina em salvar vidas que iriam degenerar o ser humano. Nas últimas décadas do passado milénio, cada ser humano era visto como um pedaço de hardware que corre um software inscrito nos seus genes e o mundo procurava melhorar-se a si mesmo, mas no fundo as ocorrências de decadência e guerra voltavam a acontecer. Portanto, voltamos ao ponto de partida de que estes elementos de um sistema global, continuam a falhar e estão longe de descobrir porquê e como mudar este padrão.

O texto A Dream World Made by Machines, de Rick Poynor, para além de fazer uma síntese do documentário traz, também, uma visão mais técnica do mesmo. Chama-nos a atenção do uso meticuloso das faixas sonoras e toda a experiência visual que temos ao visualizar o vídeo. Curtis recorre muito a uma narrativa visual fragmentada, mas que o acompanha no seu relato.

Ao longo do documentário percebe-se uma procura de um mundo ou sociedade sem hierarquias, mas também sem anarquia. Como poderemos chegar a este paraíso utópico se nos baseamos nas estruturas organizacionais da natureza, que tem as suas próprias micro e macro hierarquias?

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