Imperfeição = crescimento

O mundo das aplicações começou por trazer-nos a resolução para pequenos problemas, como manter listas e notificações de tarefas no nosso telemóvel, mas neste momento somos presenteados com aplicações para todo o tipo de coisas, desde as mais banais e insignificantes até questões muito mais sérias como a tomada de decisões.

Claro que é óptimo termos estes pequenos ajudantes no nosso bolso, ao alcance do nosso toque, mas será que se justifica haver um auxiliar para todo e qualquer tipo de problema? Será que todos os problemas são dignos de uma aplicação que os resolva por nós?

Evgeny Morozov fala-nos exactamente disto no seu artigo para New York Times – The Perils of Perfection. Dá o exemplo de Silicon Valley como um grupo de solucionistas, ou seja, tudo o que possa ser identificado como problema e ser resolvido através das tecnologias, eles resolvem (criam uma app). Mas, diz Morozov, nem todos os problemas devem ser resolvidos ou pelo menos não de forma tão leviana.

Aplicação que nos ajuda a tomar decisões, por meio de votação dos nossos amigos.

Aplicação que nos ajuda a tomar decisões, por meio de votação dos nossos amigos.

Todos estes problemas (“imperfeições”, como Morozov os chama) existem para serem resolvidos pelo indivíduo, para serem pensados por ele e porem-no à prova, de modo a permitir-lhe ultrapassá-los ou não e por consequência fazê-lo crescer com essa experiência.

O autor defende que uma vez que essas imperfeições nos sejam retiradas ou minimizadas, nós não teremos de passar pelo processo de reflexão e tentativa de resolução das mesmas e, por conseguinte perdemos a oportunidade de evoluir ou crescer como ser racional e emocional.

Portanto, o mundo das aplicações, que nos é oferecido, hoje em dia, pode ser visto, por um lado como um conjunto de ferramentas úteis (exemplo: aplicações para a monitorização da saúde) e por outro como uma destruição massiva das experiências da vida real e do desenvolvimento individual.

Em vez de termos experiências e vivências que nos marcam mais, guardadas na nossa memória (boas ou más), começámos a registar as coisas mais banais e irrelevantes com a ajuda de pequenos aparelhos, mas com que propósito?

O que me chocou mais no artigo, foi a referência à “edição” do mundo que nos rodeia:

«But smart glasses could do so much more! Why not edit out disturbing sights that haunt us on the way to work? Last year the futurist Ayesha Khanna even described smart contact lenses that could make homeless people disappear from view, “enhancing our basic sense” and, undoubtedly, making our lives so much more enjoyable. In a way, this does solve the problem of homelessness — unless, of course, you happen to be a homeless person. In that case, Silicon Valley would hand you a pair of overpriced glasses that would make the streets feel like home.» (Morozov, 2013)

A meu ver, deixámos de procurar melhorar o mundo, começámos a pensar em como camuflar todos os seus defeitos e criar mais barreiras para resolver os seus problemas. Sendo assim, as novas tecnologias como a Realidade Aumentada funcionarão em benefício do mundo virtual e não do real. Em vez de nos auxiliar com informação útil no nosso dia-a-dia, na nossa realidade, poderá ser utilizada de forma a cobrir e desprezar completamente o mundo que nos rodeia. Não nos levará esta lógica de “resolução” de problemas para um mundo de decadência, mas de prosperidade e hegemonia do mundo virtual?

Vejo estas propostas, quando levadas ao seu extremo, como uma desistência da nossa realidade e de nós mesmos.

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