ZKM em Évora – Inter[in]venção

Inter[in]venção é uma exposição de arte dos novos media, que reúne, em Évora (Fórum Eugénio de Almeida), 33 obras de 39 artistas. As obras datam dos anos 60 até 2013 e  pertencem aos autores mais marcantes deste vasto gênero, como Bill Viola, Nam June Paik, Marina Abramovic, Masaki Fujihata e Peter Weibel (entre outros), director do ZKM. A exposição oferece ao público ibérico uma possibilidade única de interacção com obras da colecção do maior centro de new media art do mundo – Center for Art and Media Karlsruhe (ZKM, na Alemanhã).

Peter Weibel, artista de new media art e um grande nome entre os teóricos da mesma, como também, professor universitário, curador das maiores exposições da Europa, director artístico do festival Ars Electronica e presidente e director do ZKM, como já foi referido, deu uma conferência intitulada de Media and Amechania. Esta serviu de introdução e contextualização para a inauguração da exposição Inter[in]venção, que ocorreu após a conferência no auditório do Fórum Eugénio de Almeida. Weibel nasceu em 1944, na Ucrânia, no entanto foi criado na Áustria. Estudou em Paris e Viena e os seus estudos abrangeram o Cinema, a Literatura, a Filosofia, a Medicina e a Lógica.

A exposição, que decorre em Évora até 9 de Março de 2014, tem como conceitos base a intervenção e a invenção. Expondo ao público trabalhos nos quais este pode tomar parte e interagir com as obras, as quais têm a característica de recorrer à tecnologia, quer seja uma projecção interactiva por meio de input de som ou de imagem (ex: Mesa di Voce e Bubbles), quer seja um tablet com Realidade Aumentada (SoundARt) ou apenas um circuito de televisões e câmeras de vídeo (Observation of the Observation: Uncertainty).

Weibel começou a sua conferência explicando a palavra Amechania – deusa grega do desamparo ou impotência (helplessnes), que pode ser relacionada também com a pobreza e a necessidade. O autor defende que vivemos em tempos de pobreza e o homem encontra-se desamparado e necessita de alguma ajuda. Segundo Weibel esta ajuda é nos dada pela mecânica, que põe ao nosso dispor os meios e ferramentas necessárias para executarmos uma tarefa, mas também, deixa-nos à sua mercê no momento em que toda a informação sobre um indivíduo ou entidade pode ser exposta numa questão de segundos para todo o mundo.

Aborda, ainda, a questão do homem se tornar num deus protésico, explorada em “Prostethic Gods” de Sigmund Freud e mais recentemente por Hal Foster. O que importa reter aqui, é que no final de contas o homem é um ser necessitado e desamparado sem as suas ferramentas e extensões mecânicas/tecnológicas (desde os meios de comunicação às próteses médicas).

No entanto, na minha percepção, a exposição que sucedeu à conferência mostra-nos o lado contrário desta relação entre homem-máquina, porque representa uma apologia à dependência da tecnologia ao ser humano. Será que esta foi a forma que nós encontrámos de fazer com que a tecnologia necessitasse do homem como o último necessita dela?

Nesta exposição dá-se grande importância ao público, o qual é convidado a interagir com as peças, atribuindo-lhes sentido e relevância. Sem a sua participação as obras não passam de dispositivos tecnológicos dispostos num espaço à espera de algum input para serem “reanimados”. O que traz outra consequência.

O surgimento dos novos media (tecnológicos) veio quebrar com a identidade do autor, todas as obras podem ser reproduzidas (Benjamin, 1936), perdendo a sua aura. Segundo Weibel, a perda da identidade do autor original da obra também se dá devido a um dos aspectos da new media art – a interactividade, mas é importante referir que este autor defende uma perda de identidade dos próprios meios. Afirma que todos os meios contêm outros em si e por consequência toda a arte é pós-media, não existe uma separação clara dos meios (Weibel, 2005: 14).

“Video lives trhough film, film lives trhough photography and video. They all live through the digital innovation.” (Idem: 15)

Com a excepção dos trabalhos meramente contemplativos, expostos na Inter[in]venção, como Imponderabilia ou Duchampiana: Nude Descending a Staircase, a maioria das obras perde a identidade do autor, na medida em que depende do público, reagindo à interacção deste e sofrendo alterações conforme o input recebido. Há, inclusive, uma instalação que regista e imprime os objectos pessoais do público – Please Empty Your Pockets -, o que eleva a identidade do público sobre a do artista e faz do primeiro, também, o autor da peça.

Rafael Lozano-Hemmer, "Please Empty Your Pockets", 2010. Fotografia por Peter Mallet.

Rafael Lozano-Hemmer, “Please Empty Your Pockets”, 2010. Fotografia por Peter Mallet.

Ao sermos confrontados com esta realidade das obras de new media (interactivas) e uma vez que iremos desenvolver uma instalação interactiva, acabámos por retirar a aura do autor da obra. Assim, considerámos importante e igualmente interessante imprimir algo da nossa identidade no trabalho, neste caso da nossa identidade cultural – de Murcia (Alba), de Rio de Janeiro (Davi) e de Chernivtsi (Maryana) – como também, de forma indirecta, um pouco da nossa cultura mais íntima – pessoal.

O utilizador/público não deixa de ser crucial para a peça, como já foi exposto acima, é ele que desencadeia uma série de acções  programadas na instalação, como também é dele que depende a forma como será lida e vivida a obra. Cada indivíduo faz as suas escolhas e descobre algo novo por uma sequência diferente de outro, já para não falar na sua interpretação pessoal de tudo o que recebe, devido ao seu próprio contexto cultural.

Neste último trabalho –objecto hipermédia –, tal como nos trabalhos apresentados em Évora, a participação do público é uma necessidade para que o objecto “viva”, possa sofrer alterações e mudar ou crescer.  Pretende-se, também encontrar uma forma de contornar a “morte” do autor, mesmo que de forma subtil e indirecta, ou seja, fornecer informação cultural de cada autor e não a sua descrição ou representação figurativa.

Referências:

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Época da Possibilidade da sua Reprodução Técnica. 1936.

BOWRING, Belinda. Hal Foster, Prosthetic Gods. Frieze Issue 88, 2005. http://www.frieze.com/issue/article/hal_foster_prosthetic_gods/

GUERREIRO, António. A arte sob a condição dos novos media. Ípsilon, 2013. http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=328631

SALEMA, Isabel. Hello Évora. Ípsilon, 2013. http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=328627

WEIBEL, Peter. The post-medial condition. ArteContexto Nr. 6, p.11-15. 2005.

WEIBEL, Peter. Globalization: The End of Modern Art. http://blog.zkm.de/en/editorial/globalization-the-end-modern-art/#sthash.1vJwZ24Z.dpuf

Fundação Eugénio de Almeida – Inter[in]venção.  http://www.fundacaoeugeniodealmeida.pt/forum/zkm-%7C-media-museum-exhibition/907.htm

Goethe Institut. Inter[in]venção. http://www.goethe.de/ins/pt/lis/ver/pt11911294v.htm

Media Art Net – Biographyhttp://www.medienkunstnetz.de/artist/weibel/biography/

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