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Corynactis carnea. Fotografia de Alexander Lyubyshev.

Taxonomia

Reino: Animalea
Filo: Cnidaria (Hatschek, 1888)
Classe: Anthozoa (Ehrenberg, 1834)
Subclasse: Hexacorallia (Haeckel, 1866)
Super ordem: Hexactiniida
Ordem: Corallimorpharia (Carlgren, 1940)
Família: Corallimorphidae (Hertwig, 1882)
Gênero: Corynactis (Allman, 1846)
Espécie: Corynactis carnea (Studer, 1879)

Corynactis carnea pertence à ordem Coralimorfária, um grupo de Antozoários sem esqueleto calcário, que povoa os recifes de corais. A espécie forma pseudocolónias, resultantes de uma reprodução assexuada (resultando em colónias de clones). A espécie é muito pouco estudada e segundo Verena e Gunter (2005; 96), pode representar um complexo de espécies, devido à alta variação dentro da espécie. No entanto, esta espécie pertence à filo que representa o grupo de animais mais antigos e os primeiros a revelar uma espécie de inteligência e movimento – através da rede nervosa.  Vídeo Cnidarians.

Estes organismos gregários são encontrados nos oceanos Pacífico e Atlântico, prevalecendo nos recifes da América do Sul. Normalmente povoam rochas ou corais do infralitoral, de 2m a 100m de profundidade, em zonas de correntes moderadas. A distribuição , em geral, depende muito da qualidade da água, no entanto estes organismos sobrevivem bem em condições extremas e de stress, como a exposição ao ar durante baixa-mar (Almeida, 2012; 2). Isto representa uma vantagem competitiva sobre muitos organismos bênticos sésseis, como os escleractíneos, quer em disputas por luz ou por alimento (13).

O seu ciclo de vida, apresenta apenas a fase de pólipo, nunca passando para medusas (Almeida, 2012; 1).

Morfologia

Corte transversal do pólipo.

Corte transversal do pólipo.

Estes seres, de esqueleto hidrostático (constituídos maioritariamente por água), possuem uma simetria radial, têm corpos em forma de saco cilíndrico liso, dividido em duas camadas. A camada exterior (epiderme) e a interior (gastroderme) estão separadas por uma parte gelatinosa (mesogleia), que proporciona um esqueleto elástico e flexível. No centro do corpo cilíndrico encontra-se a faringe e a cavidade gastrovascular que permite fazer a digestão e a distribuição de nutrientes e partículas pelo corpo do pólipo. Estes corais possuem uma única abertura, que se situa no centro do disco bocal – a boca, à volta da qual estão dispostos de forma simétrica os tentáculos (6 ou múltiplos de 6), estes preenchem todo o disco bocal. Os seus músculos são, geralmente, fracos, mas os tentáculos são bem desenvolvidos e retratáveis (Almeida, 2012; 17).

Os animais da filo Cnidária possuem uma rede nervosa, ou seja um sistema de neurónios interligados, que permite a seres sem um céfalo/cérebro coordenação de movimento (voluntário e propositado) e reacção à estímulos tácteis.

Morfologia geral de pólipos ou anémonas.

Morfologia geral de pólipos ou anémonas.

Os tentáculos de C. carnea são cobertos de espirocistos, que formam uma camada de fios adesivos. Nas pontas dos tentáculos são encontradas as acrosferas, estas contêm cnidários que podem ser compostos por vários tipos de cnidoblastos (células urticantes), com funções de defesa, agressão/ataque, alimentação ou de assentamento larval.

Os seus tentáculos, tal como o corpo, são curtos, no entanto os tentáculos marginais são mais longos do que os discais (mais próximos da boca).  Estes pólipos crescem até 1cm de diâmetro.

A sua coloração é muito variável (Acuna, 2009; 50), o pólipo pode apresentar-se com cores translúcidas e mais ou menos intensas ou até criar combinações de cores diferentes no corpo e nos tentáculos.

Stylopora pistillata a alimentar-se de náuplios de Artémia.  Fonte: http://www.ipaq.org.br/vb/content.php?113

Stylopora pistillata a alimentar-se de náuplios de Artémia. Fonte: http://www.ipaq.org.br

Alimentação

A alimentação ocorre com a ajuda dos tentáculos, estes reagem ao toque da presa e tentam levá-la à boca do pólipo, para dentro da qual são também recolhidos, fechando-se para digerir o alimento. A alimentação consiste em plâncton (fito,  zoo e bacterioplâncton), detritos orgânicos, nutrientes dissolvidos e crustáceos, nomeadamente  camarões Artémia, náuplios de Artémia, e ainda ovas de lagosta.

Quando se trata de presas como os crustáceos, os tentáculos agarram-nos por meio dos espirocistos, de seguida injectam na presa neurotoxinas que actuam à nível do sistema nervoso central, através dos nematocistos, paralisando a presa e possibilitando aos tentáculos levá-la para o orifício bocal.

Mecanismo de desencadeamento dos cnidoblastos.

Mecanismo de desencadeamento dos cnidoblastos.

“Illustration depicting cnidocyst discharge into prey. The cnidocil is a mechanosensory element on the apical surface of the cnidocyte. Upon appropriate stimulation, including mechanical stimulation of the cnidocil, the cnidocyst is triggered to rapidly evert its stinging thread into the potential predator or prey. Venom is then delivered into the contacting organism.”  (Oppegard S.C., 2009).

Defesa e ataque

Os corais são organismos sésseis, permanecem no mesmo sítio a maior parte da sua vida e como tal ficam expostos a predadores, não podendo fugir rapidamente. No entanto, alguns corais desenvolveram defesas naturais que consistem em toxinas, estas podem ser produzidas pelos próprios corpos ou por bactérias que vivem em simbiose com esses corais (Van Der Weijden). A maioria dos corais, inclusive as Corynactis, possuem nematocistos – cápsulas no interior dos cnidoblastos, que disparam agulhas com neurotoxinas e podem ser utilizados tanto para “caçar”, como para lutar com um caçador ou membro de outra espécie (pelo território ou alimento).

As toxinas mais usadas são neurotoxinas, actuando ao nível do sistema nervoso da presa ou oponente, normalmente paralisando-o e levando-o à morte.

Os membros da ordem Coralimorfária, apresentam um certo grau de agressividade perante outras anémonas e corais residentes do mesmo território. Estes cnidários podem expulsar os seus filamentos mesentéricos para os membros de outras espécies, que se manifestam, segundo Chadwick (1987; 113), por contracção/recolher dos tentáculos, inclinação ou deslocação para longe e ainda contra-ataque. Os filamentos podem ser estruídos pela boca (69%), através de aberturas na coluna (7%) ou das junções entre a coluna e a base (24%) (Almeida, 2012; 14).

Este comportamento é frequente em relação a corais escleractínios (da mesma classe: Antozoa), resultando em danos graves que vão desde lesões, cicatrizes e necroses, podendo os membros de Coralimorfária substituírem completamente os corais. Felizmente, esta é uma atitude que a espécie reserva apenas a espécies alheias, não se verificando entre os membros da mesma família ou espécie, mesmo que sejam colónias de diferentes pólipos (de progenitores diferentes). Quando o mesmo tipo de interacção ocorre com as esponjas, macroalgas e hidrocorais, não são registados danos (Almeida, 2012; 14).

Alguns corais desenvolveram sistemas imunitários intrincados (Wijgerde, a), conseguem reconhecer o tecido genético da sua espécie, à qual se fundem ou transferem energia e nutrientes para curar doenças/feridas.

Reprodução

Os pólipos de Corynactis carnea reproduzem-se de forma assexuada (Cha, 2007; 54) e sexuada, ocorrendo a primeira por meio de gemulação e a segunda por meio de larvas planctónica (Almeida, 2012; 15).

A primeira, uma espécie de clonagem, ocorre segundo uma fissão longitudinal (ou múltiplas), formando duas colunas – dois pólipos – independentes, pode acontecer, no entanto, uma fissão incompleta ou imperfeita resultando em dois corpos ligados pelo tecido da base. Este método pode ser reproduzido artificialmente, procedendo-se a um corte longitudinal do pólipo, de modo a dividi-lo em duas partes iguais. Este tipo de reprodução permite uma rápida colonização de áreas novas, no entanto a colónia corre o risco de ser devastada por uma doença presente em todos os corpos. “É provável que ocorra com mais frequência em ambientes com alto grau de estabilidade por um longo período, (…)” (Almeida, 2012; 16).

Fases mais importantes do desenvolvimento da larva plânula.

Fases mais importantes do desenvolvimento da larva plânula.

A reprodução através das larvas, ocorre quando a colónia de pólipos masculinos liberta sémen para a água, enquanto que uma colónia de pólipos femininos liberta ovócitos, uma vez fecundados na água estes evoluem para uma larva planctónica que se planta numa superfície para colonizar o espaço. Os ciclos de reprodução sexual são anuais com produção sazonal dos ovócitos.

Em algumas espécies de coralimorfários os pólipos femininos encontram-se no centro, cercados pelos pólipos masculinos. A reprodução está ligada às subidas de temperatura da água (sazonais) e também com maior presença de plâncton/alimento (Holts, 1992; 129).

Os pólipos resultantes de “clonagem” têm todos o mesmo sexo e a mesma cor. Um clone, apenas, “pode duplicar o número e, portanto, reclamar a superfície dos seus pólipos, em dois meses” (Langstroth, 2000; 143).

Associações simbióticas

Apesar de que C. carnea habita a profundidades mais ou menos superficiais (2-100m), esta não usufrui da endossimbiose com as algas zooxantelas, relação mais comum nos cnidários. No entanto, espécies deste gênero podem beneficiar da presença de macroalgas (comensalismo), que lhes fornecem protecção e reduzem a velocidade do fluxo de água, o que lhes aumenta a disponibilidade de alimento (Almeida, 2012; 14).

Num recife de coral, todos os habitantes dependem de algum modo de outros. Os corais alimenta-se de detritos dos restantes organismos. O que coloca a espécie carnea numa espécie de relação mutualista com os corais, os pólipos agarram-se aos corais calcários (mortos), que lhes providenciam uma residência e os pólipos fornecem alimento para corais vivos quando produzem detritos.

As espécies Corynactis podem representar perigo para algumas espécies de estrelas-do-mar, que evitam as primeiras (Almeida, 2012; 13). Por conseguinte, é frequente a presença próxima de mexilhões, vieiras e amêijoas (Levenbach, 2007; 18), que procuram protecção contra as estrelas-do-mar.

Ameaças

Tal como a grande parte da biodiversidade dos recifes de corais, a espécie C. carnea é afectada pelo aquecimento global, que acaba por provocar mais danos no sentido em que existem muitas relações simbióticas nos recifes, tornando a maioria dos seus habitantes interdependentes. Uma das maiores causas de morte dos corais é o branqueamento, que pode ter origem em doenças, aquecimento global (ou outras condições ambientais precárias) e poluição (Kershner).

Mais de 50% da alimentação de tartarugas marinhas é constituída por coralimorfários (Almeida, 2012; 13), o que torna as Corynactis suas presas. Por outro lado, existe a influência negativa das algas foliosas, as quais podem reduzir drasticamente a captura de alimento, por desviarem o fluxo de partículas e provocarem a retracção dos pólipos (Almeida, 2012; 14).

Origem e evolução

Os Cnidários representam o grupo de animais mais antigos e os primeiros a revelar uma espécie de inteligência e movimento – através da rede nervosa que possuem (não possuem cérebro), que interliga neurónios.

Cnidarian_relationships

“In general, invertebrates have evolved from single-celled forms (protozoans) through colonial forms (cnidaria -corals), to true multicellular forms such as shrimps. The trend in evolution also included a change in body symmetry – from radial to bilateral. In this order of ever increasing complexity, the worm phyla was the earliest group to produce important features of advanced design.” (Marine Animals)

Os corais têm dois eixos, são bilaterais, como também apresentam simetria radial – “biradial”. A teoria que prevalece sobre a evolução dos Cnidários consiste num antepassado comum a Cnidários e Bilaterianos (incluindo os homens), que já tinha evoluído para um corpo bilateral. Para além disso, os corais possuem genes mesodermais, constituintes de uma camada de tecido embrionário – mesoderme -, a qual os corais não possuem. Conclui-se, desta teoria, que o desenvolvimento morfológico dos corais foi interrompido ao longo da sua evolução (Wijgerde, b).

http://www.mbl.edu/news/press_releases/pdf/nematostella_backgrou

Segundo o documentário “Cnidarians” de Sea Studios Foundation, a evolução natural dos pólipos de Cnidários deu origem às medusas/águas-vivas. Hoje em dia esta evolução continua a ser evidente, pois o nascimento e desenvolvimento de uma água-viva passa pela fase de pólipo, ou melhor, nasce dele e torna-se um organismo independente e móvel (ao contrário do pólipo progenitor).

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Almeida, Jonathan Villela (2012). Espécies de Corallimorpharia (Cnidaria: Anthozoa) no Brasil. [Dissertação de Mestrado na área de Zoologia apresentada no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.] São Paulo: 2012.

Chadwick, Nanette E. (1987). «Interspecific agressive behavior of the Corallimorpharian Corynactis californica (Cindaria: Anthozoa): effects on sympatric corals and sea anemones.» in Biological Bulletin (1987). Vol. 173, No. 1. Marine Biological Laboratory; 110-125 pp.

Earth History (2012). Mysteries of the cnidarians.  <http://www.earthhistory.org.uk/corals-and-jellies&gt;

Haussermann, Verena  and Forsterra, Gunter (2005). «Distribution patterns of Chilean shallow-water sea anemones (Cnidaria: Anthozoa: Actiniaria, Corallimorpharia), with a discussion of the taxonomic and zoogeographic relationships between the actinofauna           of the South East Pacific, the South West Atlantic and the Antarctic.» in Arntz, W.E.,   Lovrich,  G.A. and Thatje, S. (eds.). Scientia Marina. [subtítulo: «The Magellan-Antarctic connection: Links and frontiers at high southern latitudes.»] No. 69, suplemento 2. 91-102 pp.

Holts, L.J. and Beauchamp, K.A. (1992). «Sexual reproduction in the corallimporpharian sea anemone Corynactis californica in a central California kelp forest.» in Marine Biology  (1993). Vol. 116, No. 1. Springer-Verlag; 129-136 pp.

Kershner, Jessie (s.d.). « Aiptasia reveals new mechanisms of coral bleaching.» in Coral Science (2009). <http://www.coralscience.org/main/articles/symbiosis-4/aiptasia-a-bleaching&gt;

Langstroth, Lovell and Langstroth, Libby (2000). A Living Bay: The Underwater World of Monterey Bay. California: University of California Press; 287 pp.

Levenbach, Stuart (2007). Community-wide Ramifications of an Associational Defense on    Shallow Rocky Reefs in Southern California. [Tese de Doutoramento na área de Filosofia em Ecologia, Evolução e Biologia Marinha apresentada na Universidade de Califórnia]. ProQuest; 147 pp.

McCloskey, Bryan (s.d.).  Illustrated Glossary of Sea Anemone Anatomy: Entire Body Cross Sections. <http://web.nhm.ku.edu/tol/glossary/entirebodycross.html&gt;

Oppegard, SC, Anderson, PA, Eddington, DT (2009). Puncture mechanics of cnidarian cnidocysts: a natural actuator. <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19785761&gt;

Rose, Alex (s.d.). «Coral taxonomy.» In Coral Science (2009).     <http://www.coralscience.org/main/articles/taxonomy-2/coral-taxonomy&gt;

Van Der Weijden, Sander (s.d.). «Chemical defense mechanisms.» in Coral Science (2009). <http://www.coralscience.org/main/articles/biochemistry-2/chemical-defense-mechanisms&gt;

Wijgerde, Tim (s.d, a). «Coral Immunology» in Coral Science (2009). <http://www.coralscience.org/main/articles/immunology-1/coral-immunology&gt;

Wijgerde, Tim (s.d, b). «The coral body plan» In Coral Science (2009).                  <http://www.coralscience.org/main/articles/development-5/coral-body-plan&gt;

Wijgerde, Tim (s.d, c). «Modelling coral growth.» In Coral Science (2009). <http://www.coralscience.org/main/articles/development-5/modelling-coral-growth&gt;

Wijgerde, Tim (s.d, d). «How corals feed.» In Coral Science (2009).  <http://www.coralscience.org/main/articles/nutrition-6/how-corals-feed&gt;

MrZubeTuber (2012). Cnidaria discussion. [Vídeo] < http://www.youtube.com/watch?v=Vu6i3K4iUgk >

Para a lista completa de referências contactem-me.

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